
Noite Suja - Preâmbulo
Faz mais de dez anos, mas ainda me parece engraçadíssimo. Era
o final de uma época, e não era nada digno. Havia um bar na Consolação, do lado
dos Jardins, que quando inaugurado era sensacional. Chamava-se Brew Pub e praticava
uma quase novidade: era uma fábrica de chope. Servia duas versões claras: uma
Pilsen, outra Weiss sem filtragem. Também tinham chope âmbar e Stolt. Este último
conferia ao bom bebedor as defesas da lula: era tão forte que você lembrava-se
que o havia bebido toda vez que ia ao banheiro, durante a semana seguinte inteira.
Conheci um surfista que bebeu muito desse chope e, três dias depois, em Recife,
foi atacado por um tubarão. Safou-se defecando-se todo e criando uma nuvem negra
de proteção em torno de si. é verdade.
Tábuas de frios imensas e bem montadas, mulheres jovens e bem
dispostas por todos os lados. O lugar transpirava perversão, e isso sob uma
decoração que parecia ter saltado da cabeça de uma prostituta esquizofrênica.
Quase todas as paredes eram salmão. Os banheiros poderiam abrigar quatro ou
cinco famílias de retirantes, se Lula já tivesse sido eleito em 1994. Todo mundo
ficava bêbado em menos de meia hora, porque os garçons serviam chope furiosamente,
sem permissão ou pedido. Muita gente vomitava. Numa noite eu vomitei e, pouco
tempo depois, estava com um copo de chope na mão. Durou pouco o bar, ao menos
naquele estilo. Paulistano, brasileiro em geral, bebe muito mal. Prefere cerveja
fraca, estranha sabor, se embanana todo. Os proprietários tiveram que se conformar
e destruíram o próprio chope. Na última vez que estive lá, parecia guaraná.
Verdadeiramente uma merda.
O fato é que, àquela época, o chope ainda era o melhor que
já se tomou nesta cidade, e acho que isso colaborou para a desgraça do Pereirinha.
O Pereira é portuga, como se nota pelo nome. Tem aquela cor de quem foi concebido,
veio ao mundo e foi criado atrás do balcão. Comerciante nato, mas português
desses do Aloísio Azevedo. Nunca se controlou. Precisava ter duas mulheres.
Sempre dava um jeito. E bebe como um porco. Não poderia dar certo. Não deu.
O velho Pereira criou o bonito hábito de comer a melhor amiga
da minha então namorada, e acabou se apaixonando. Chamava-se Laura. Meio gordinha,
mas perfeitamente arranjada, rosto lindíssimo. Muito inteligente e uma das piores
vacas que eu já conheci. Ninguém parava de rir perto dela. Parece que metia
como se tivesse um rotor no útero. Pereirinha dançou. Já era casado com a ex-amante,
e agora a estava traindo com uma nova amante. Isso mesmo. Pereira sempre se
casa com a amante, um dia. O homem tem método.
O problema todo é que meu namoro acabou, e acabou soltando
merda para todo lado. Assim, o quarteto composto por mim e minha namorada e
por Pereira e sua amante teve que ser desfeito. Minha ex-namorada partiu para
uma vida de sodomia selvagem e ficamos muitos anos sem nos ver. Como Laura era,
além de melhor amiga de minha ex-namorada, amante do meu melhor amigo e, por
último mas não somente, minha melhor amiga, naturalmente formamos um trio. Tinha
tudo para dar errado. Deu.
Eu tinha um sítio. Pereira gostava de traçar amantes lá. Esposas
jamais. A então esposa só ia lá enquanto foi amante. Depois que virou esposa,
nunca mais foi. Ia para o sítio dele, ser traçada lá. Amante lá não entrava,
só depois de virar esposa. Pereira gostava de tomar chope no Bar Barão. Para
isso, ele reservava datas para amantes e esposas, porque lá sempre foi proibido
beijar e isso o livrava de todas as possibilidades de flagrante. Pereira gostava
de se embebedar nas cercanias da FAAP. Como a esposa trabalhava como uma camela
velha, voltava direto para casa. Não tinha tempo de se embebedar em lugar nenhum.
Pereira gostava de dar uns tirinhos, mas suas mulheres não. A esposa não tolerava,
mas a amante sim. Dessa forma, se Pereira surgisse meio atrasado em casa, mas
meio estaladinho, sua esposa lançava a conta dos atrasos meios e inteiros na
fatura daquele vergonhoso nariz de batata. Eu não sei se vocês perceberam, mas
Pereira era um gestor de riscos de primeira linha.
Até o Brew Pub cruzar sua vida. O homem não estava preparado
para aquilo. Ficou encantado. Ficamos encantados. O trio ficou. O trio ampliou-se,
porque a novidade precisava ser compartilhada com o mundo querido. Pereira retomou
uma velha amizade com certo cafajeste da Mooca chamado Leppori, um homem loiro,
muito bonito, com um nariz homicida. Arrumei uma franga para ele, uma moça até
muito apetitosa contra quem eu havia broxado, uns anos antes. Boa menina, tinha
uma amiga muitíssimo apetitosa e completamente louca, que vivia coberta de adereços
prateados horripilantes. Passei uns bons meses tentando comê-la, mas eu vivia
tão bêbado que não lembro se consegui. Já tínhamos um sexteto, composto por
três cocainômanos alcoólatras, uma vadia maquiavélica, uma vadia inocente e
uma piradona da melhor espécie que, infelizmente, não era vadia o suficiente.
Já era alguma coisa. Fomos felizes.
Foi aí que Pereira errou. Estava tão empolgado com o bar que
passou a ir lá três ou quatro vezes por semana. Num dia, ia com o sexteto (ou
parte dele). Noutro, ia com a esposa e um conjunto de amigos pretos a quem Laura
apelidou de Black Klux Kan. Eram gente da melhor espécie e deveriam ter arrumado
melhores companhias. O fato é que Pereira aparecia lá as terças e quintas com
a esposa e amigos, e as segundas, quartas e sábados, com a amante e uma renca
de imprestáveis. Sentava-se sempre na mesma mesa (fato que viria a aprofundar
severamente sua desgraça, como se verá adiante) e se deixava atender sempre
pelos mesmos garçons. Dava sempre as mesmas gorjetas e bebia cada vez mais.
Dilapidou todas as linhas de crédito que possuía, inclusive o cheque azul da
caixa cuja detonação até hoje me é atirada na cara. Um desplante.
Era uma questão de tempo. O tempo escoou. A ampulheta virou
numa noite de quinta-feira em que decidi resistir aos apelos do sexteto parcialmente
reunido e, intimidado pelo meu saldo devedor, decidi retirar-me mais cedo. Despedi-me
de todos, cumprimentei garçons e sócios (meçam o nível de intimidade com a casa),
desci os poucos degraus da entrada e virei à direita, subindo a Consolação em
direção à Paulista. Menos de meia quadra depois ouvi pequeninos golpes contra
a calçada, provocados por tamancadinhas rápidas. Tamancadinhas típicas do Tatuapé.
Tamancadinhas típicas de um andar apressado, que aproximavam-se de mim sem me
notar. Levantei os olhos e os cruzei com os olhinhos rasgados, meio espremidos
na cabecinha triangular e morena de Vaninha. Vânia Cristina. A mulher e ex-amante
do Pereira descia ao Brew Pub. Era uma mulher severa.
- Oi, Ed!; seca, todavia sinceramente surpresa;
- Oi, Vânia; dissimulado e nem um pouco surpreso;
- Quê cê tá fazendo aqui?; ainda sinceramente surpresa;
- Indo para casa; ainda dissimulado e já ansioso;
- Você estava no Brew Pub?; incisiva e redundante;
- Isso; com uma coceira no céu da boca;
- Com o ênio?; chamando o canalha pelo prenome;
- Isso; envergonhado em sentir que, não estando ao meu alcance
evitar o inevitável, estava feliz em saber que não perderia a cena do circo
sendo tomado pelo fogo e, ainda, teria uma desculpa para voltar a beber;
- Eu descendo lá vou ver uma coisa que não vou gostar, né não?;
já humilde e amargurada.
Que queriam que eu dissesse? Se negasse, ela não desceria do mesmo jeito? Já
estava lá. Fiz cara de bunda. Bundana cara.
- Boooom, Vânia; condescendente e emulando falta de jeito. Fui recompensado.
Veio o convite:
- Você vem comigo; imperiosa e resoluta.
A partir daqui, a coisa tomou rumos absurdamente constrangedores, além de amargamente
hilários. Não há condição de desdobrá-los sobre os senhores sem uma série de
pequenos intróitos, detalhamentos mil e notas de rodapé. Os senhores farão a
gentileza de nos conceder algum tempo. Afinal, não é à toa que a sessão chama-se
“Crônicas Bundanas”, no plural. é que são várias crônicas, e o final desta narrativa
se dá na próxima. Ou nas próximas.
Ed Smerald
www.leveiumpenabunda.com.br